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15 Agosto 2016 - Atualizado a 3 Novembro 2016

Brasil: Cinco mortes que marcaram a violência contra os jornalistas nos últimos anos

Como parte da campanha “Algumas vitórias não merecem medalhas”, a Repórteres sem Fronteiras (RSF) relembra cinco casos emblemáticos de assassinatos de jornalistas nos últimos anos. A organização aponta para o papel fundamental da imprensa no país, ainda estruturalmente marcado pela violência e a corrupção.

A campanha “Algumas vitórias não merecem medalhas”, lançada na véspera do início das Olimpíadas pelo escritório para a América Latina da RSF, sediado no Rio de Janeiro, tem como objetivo alertar a sociedade para o grande número de casos de violência contra jornalistas no Brasil e pressionar as autoridades para que tomem medidas concretas para reverter esse quadro. A organização aponta sobretudo para a precaridade e a falta de consideração para com a profissão, em especial no caso de comunicadores que atuam em mídias de menor porte e afastados dos grandes centros urbanos do país.

Entre 2012 e agosto de 2016, 22 jornalistas foram mortos no Brasil, que nesse período se tornou o segundo país com o maior número de comunicadores assassinados da América Latina, atrás apenas do México.


A RSF se debruça sobre cinco desses casos que ilustram, por um lado, a diversidade de situações de risco enfrentadas por repórteres, blogueiros, radialistas,... no país, e por outro, a urgência de se pensar soluções para criar mecanismos eficientes de prevenção e proteção para esses profissionais. Suas mortes não devem cair no esquecimento, pois suas histórias nos permitem lembrar o papel fundamental dos jornalistas, em especial do jornalistas investigativos e daqueles que demonstram grande coragem ao denunciar a dura realidade que os cerca, na tentativa de trazer à tona e fazer avançar a luta contra a atuação de grupos criminosos, os abusos de poder na administração pública e as violações de direitos humanos.



Gleydson Carvalho (1982-2015)

Radialista da Rádio Liberdade FM, no município de Camocim (CE), assassinado no dia 6 de agosto de 2015.

Dois atiradores invadiram os estúdios da Rádio Liberdade FM, no município de Camocim (CE), a 350 Km de Fortaleza, e dispararam várias vezes contra o radialista Gleydson Carvalho, durante o intervalo musical do programa que ele estava apresentando ao vivo. Seu programa era muito popular e nele denunciava regularmente casos de corrupção e irregularidades na gestão pública. De acordo com sua família e amigos, Gleydson já havia recebido diversas ameaças de morte e estava consciente de que suas acusações lhe traziam muitos inimigos.

O Ministério Público Estadual do Ceará (MP-CE) denunciou sete pessoas por envolvimento no planejamento e morte do radialista. Entre os denunciados, estão o tio e o sobrinho do prefeito da cidade vizinha, Martinópole. Segundo o órgão, o crime foi motivado por críticas políticas que o radialista fazia em seu programa.


Evany José Metzker (1948-2015)

Jornalista e blogueiro encontrado decapitado em Padre Paraíso (MG), no dia 18 de maio de 2015.


O corpo do jornalista e blogueiro Evany José Metzker foi encontrado decapitado e com sinais de tortura nos arredores de Padre Paraíso, no nordeste de Minas Gerais. O jornalista de 67 anos estava desaparecido desde o dia 13 de maio, data da última publicação em seu blogue Coruja do Vale. De acordo com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Evany José Metzker realizava há vários meses investigações sobre tráfico de droga e prostituição infantil no Vale do Jequitionha, região mais pobre do estado. No seu blog, ele já havia igualmente denunciado em diversas ocasiões casos de corrupção, apontando representantes e funcionários públicos.

A Polícia Civil de Minas Gerais declarou que nenhuma pista, seja de motivação política ou seja ligada a um crime passional, seria excluída. Até hoje, nenhum suspeito foi apresentado à justiça.


Pedro Palma (1967-2014)

Diretor do jornal Panorama Regional, assassinado no dia 13 de fevereiro de 2014, em Miguel Pereira (RJ).



O jornalista Pedro Palma foi morto a tiros na frente de casa, no dia 13 de fevereiro de 2014. Ele era o diretor do jornal Panorama Regional, essencialmente distribuído em cidades da região metropolitana do Rio de Janeiro. Um ano após sua morte, quatro integrantes de uma quadrilha foram presos pela polícia durante uma investigação sobre fraude e falsificação de contratos com prefeituras da Baixada Fluminense e no sul do estado. As investigações entorno do assassinato do jornalista Pedro Palma, que estava prestes a revelar fraudes em licitações na prefeitura da cidade, foram em grande responsáveis pelo desdobramento da “Operação Cerro”, que emitiu pelo menos 9 mandatos de prisão na região para funcionários públicos envolvidos no esquema.


Santiago Ilídio Andrade (1964-2014)

Cinegrafista morto no dia 10 de fevereiro de 2014, alguns dias após ser ferido na cabeça durante cobertura de uma manifestação no Rio de Janeiro (RJ).


No dia 6 de fevereiro, Santiago Ilídio Andrade foi atingido na cabeça por um rojão disparado por manifestantes enquanto fazia a cobertura para a TV Bandeirantes de um protesto contra um novo aumento das tarifas de ônibus. Ele foi transportado no mesmo dia para o Hospital Souza Aguiar, no Rio. Sujeito a uma operação de mais de quatro horas de duração, sucumbiu aos ferimentos na tarde do dia 10 de fevereiro de 2014. Ele não estava usando nenhum tipo de equipamento de segurança durante a cobertura.

Os dois jovens identificados como sendo os responsáveis por acender o rojão foram inicialmente acusados de homicídio doloso (com intenção de matar) e foram postos em prisão provisória. Um ano depois, uma decisão da justiça desclassificou a acusação e agora ambos aguardam novo julgamento em liberdade.


Décio Sá (1965-2012)

Jornalista assassinado em São Luís (MA), no dia 23 de abril de 2012.


O jornalista e blogueiro Décio Sá, de 42 anos, foi abatido por um homem no bar Estrela D’Alva, em São Luís (MA). Ele trabalhava há 17 anos na editoria política do jornal O Estado do Maranhão. Também era o autor do Blogue do Décio, que em cinco anos de existência se tornou um dos mais visitados blogs de notícia do estado. As reportages de Décio Sá abordavam temas de atualidade política, de corrupção e do crime organizado.

De acordo com as investigações do Ministério Público, o assassinato foi motivado por denúncias feitas pelo jornalista de casos de agiotagem. O inquérito apontou que os envolvidos no assassinato faziam parte de uma quadrilha de agiotas, que emprestava dinheiro para financiar campanhas de candidatos a prefeitos que pagavam a dívida com dinheiro público quando venciam as eleições. A morte do jornalista levou às investigações da Polícia Civil do Maranhão e da Polícia Federal, que encontraram ligação de pelo menos 41 prefeituras maranhenses, no período de 2009 a 2012, com cerca de R$ 100 milhões de recursos estaduais e federais desviados. Os mandantes e executores do jornalista foram presos.


O país ocupa a 104a posição entre 180 países no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2016 da RSF.